Uma mudança importante na movimentação de contêineres no Porto de Suape, em Pernambuco, poderá produzir consequências que vão muito além da disputa comercial entre dois terminais.

O Tecon Suape, controlado pela operadora internacional ICTSI, admite avaliar até mesmo a devolução antecipada de seu contrato de arrendamento caso a transferência das cargas da Maersk para o novo terminal da APM Terminals torne a operação economicamente insustentável.

O contrato atual do Tecon Suape permanece válido até 2031.

A preocupação surge após a Maersk comunicar formalmente que deixará de movimentar suas cargas no terminal operado pela ICTSI e passará a direcioná-las para a instalação da APM Terminals, companhia pertencente ao mesmo grupo econômico do armador dinamarquês.

Segundo informações divulgadas pela Agência Transporte Moderno, a ICTSI estima que a mudança poderá representar uma perda entre 30% e 35% da movimentação do Tecon.

De 720 mil para 450 mil TEUs

Os números ajudam a dimensionar o impacto.

O Tecon Suape movimentou aproximadamente 720 mil TEUs em 2025. Com a saída das cargas da Maersk, a estimativa apresentada pela administração do terminal é de que esse volume possa cair para aproximadamente 450 mil TEUs.

O problema é que o ponto de equilíbrio econômico da operação estaria atualmente em torno de 550 mil TEUs por ano, considerando custos operacionais, outorga e demais compromissos relacionados ao arrendamento.

Isso colocaria o terminal cerca de 100 mil TEUs abaixo do volume considerado necessário para sustentar sua atual estrutura operacional.

Nas projeções apresentadas pelo CEO do Tecon Suape, Thomas Lima, considerando crescimento de mercado próximo a 2% ao ano e sem a conquista de novas cargas, poderiam ser necessários aproximadamente 12 anos para que o terminal voltasse ao seu ponto de equilíbrio.

Nesse cenário, a devolução antecipada do arrendamento passou a ser considerada pela companhia.

Novo terminal muda jogo em Suape

A disputa ocorre justamente após uma transformação estrutural no mercado de contêineres do complexo pernambucano.

Durante mais de duas décadas, o Tecon Suape foi o único terminal especializado na movimentação desse tipo de carga no porto.

Agora, o cenário mudou com a chegada da APM Terminals Suape.

O empreendimento recebeu investimentos superiores a US$ 350 milhões e foi projetado inicialmente para movimentar até 400 mil TEUs por ano, aumentando em aproximadamente 55% a capacidade de movimentação de contêineres de Suape.

O terminal também se destaca por sua infraestrutura eletrificada e alto nível de automação.

A entrada de um segundo operador poderia representar simplesmente uma ampliação da concorrência. O ponto levantado pela ICTSI, entretanto, está na relação societária entre terminal e armador.

A APM Terminals integra o grupo A.P. Moller-Maersk.

Discussão chega ao Cade

É justamente essa verticalização que colocou a disputa em outro patamar.

O Tecon Suape funciona como um terminal arrendado localizado dentro do porto organizado, submetido às obrigações, pagamentos e regras estabelecidos em seu contrato.

Já a instalação da APM Terminals funciona como Terminal de Uso Privado (TUP), submetido a outro regime jurídico.

Além disso, enquanto a ICTSI se apresenta como uma operadora independente — ou de “bandeira branca” —, atendendo diferentes companhias marítimas, a APM Terminals possui vínculo com um dos maiores armadores do mundo.

Para a ICTSI, a transferência de volumes anteriormente movimentados pelo Tecon para um terminal pertencente ao mesmo grupo econômico da Maersk merece ser analisada também pela ótica concorrencial.

O assunto já chegou ao Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade).

Entre as propostas defendidas pela ICTSI está considerar a média das cargas da Maersk movimentadas pelo Tecon Suape nos últimos cinco anos como referência e preservar esse volume no terminal arrendado. A competição entre os dois operadores ocorreria, nessa visão, principalmente sobre os novos volumes atraídos para o complexo.

TCU também está no caso

Existe ainda uma segunda frente de questionamento.

A ICTSI contesta os procedimentos relacionados à utilização da área onde foi instalado o terminal da APM Terminals.

O terreno havia sido originalmente destinado às atividades de construção naval e utilizado pelo Estaleiro Atlântico Sul (EAS). Posteriormente, parte da área foi adquirida pela APM Terminals para implantação da nova instalação portuária.

A discussão sobre a alteração da finalidade da área foi levada ao Tribunal de Contas da União (TCU).

São, portanto, duas discussões distintas: uma concorrencial, envolvendo a transferência das cargas e a verticalização entre armador e terminal; e outra relacionada à destinação da área utilizada pelo empreendimento.

Uma discussão que ultrapassa Suape

O episódio pernambucano coloca novamente no centro do debate portuário brasileiro uma questão que tende a ganhar cada vez mais importância: até onde vai a competição quando armadores também controlam terminais?

A verticalização não é novidade na indústria marítima internacional. Grandes grupos de navegação vêm ampliando sua presença em terminais, logística terrestre, armazenagem e outros elos da cadeia.

O caso de Suape, entretanto, poderá se tornar particularmente relevante para o mercado brasileiro porque coloca frente a frente dois modelos distintos: de um lado, um terminal arrendado e independente de armadores; do outro, um TUP pertencente ao mesmo grupo econômico de uma das maiores companhias de navegação do planeta.

Para o setor portuário, a discussão central deverá ser encontrar o equilíbrio entre atração de investimentos privados, aumento da capacidade, liberdade comercial dos armadores e preservação de um ambiente efetivamente competitivo entre operadores.

Enquanto essa discussão avança nos órgãos competentes, uma consequência já está clara: a entrada da APM Terminals mudou profundamente o mercado de contêineres de Suape.

E, dependendo dos próximos capítulos, essa mudança poderá chegar até à permanência do atual Tecon no complexo portuário pernambucano.

Fonte das informações: Agência Transporte Moderno, APM Terminals e Ministério de Portos e Aeroportos.
Texto e edição: Jornal Portuário.